Este é o quarto e último texto da série sobre as Escolas Cervejeiras. Conheça aqui um pouco mais sobre a Escola Americana, sua história, características gerais e alguns dos principais estilos com indicações de rótulos icônicos.

Não tem como se falar em cervejas artesanais sem reconhecer o importante papel dos Estados Unidos em sua popularização pelo mundo, inclusive em países tradicionalmente cervejeiros, como os que vimos nesta série.

Aqui mostramos um pouco mais sobre a história da Escola Americana, as características dos principais estilos que a compõem, alguns rótulos icônicos e personalidades importantes.

História da Escola Americana

Até o século XVI, quando o continente americano começou a ser colonizado pelos europeus, tribos nativas norte-americanas já produziam uma bebida fermentada produzida a partir de ingredientes locais, especialmente o milho.1

No decorrer das disputas entre as potências colonizadoras, o Reino Unido veio a estabelecer o embrião do que viria a ser os Estados Unidos com suas 13 colônias. A partir deste momento, a influência da cultura cervejeira britânica se espalhou pela colônia, com várias novas cervejarias acompanhando sua expansão territorial e posterior transformação em um país independente.

Lei Seca (1920 – 1933)

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Oficiais descartando bebida ilegal durante a Lei Seca.

Tudo ia bem até o início do século XX, quando movimentos sociais conservadores pressionaram por medidas contra o abuso de álcool. Estas medidas culminaram na Lei Seca de 1920 (“Prohibition”, em inglês), que durante 13 anos proibiu a produção e comércio de bebidas alcoólicas. Muitas cervejarias, especialmente as pequenas, foram extintas, enquanto outras se adaptaram e passaram a produzir produtos que aproveitavam sua estrutura como cerveja sem álcool, extrato de malte, sucos e refrigerantes. 2

Após a Lei Seca, as poucas cervejarias menores que conseguiram sobreviver viram-se em desvantagem frente às grandes como Pabst e Anheuser-Busch (Budweiser). Com o cenário favorável à consolidação no mercado, especialmente a partir dos anos 1940, as grandes transformaram-se em gigantes, modernizando processos e dominando o mercado. Entre os anos 1940 e 1980, o market share das cinco maiores cervejarias passou de 19% para 75%. 2

Para ilustar o impacto que a Lei Seca teve no mercado norte-americano, considere que em 1873 os EUA contavam com mais de 4.000 cervejarias, marca que somente seria atingida novamente em 2015. 3 Em 1980, eram menos de 50. 4

Craft Beer Renaissance, a Revolução das Cervejas Artesanais

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Cervejas da Anchor Steam Brewery, considerada a mãe das microcervejarias dos EUA.

Mal sabiam as grandes cervejarias que, enquanto elas dominavam o mercado com um único estilo de cerveja, que veio a se categorizar como American Lager, ainda havia pessoas que se lembravam da variedade e sabor das cervejas de antigamente.

Uma destas pessoas era Fritz Maytag, que em 1965 adquiriu uma pequena cervejaria falida em São Francisco e resolveu não competir com as grandes produzindo American Lagers. Maytag manteve o nome original da fábrica, Anchor Steam Brewery, e apostou em estilos tradicionais como Cream Ale, India Pale Ale e Porter. 5 Sua cervejaria foi ganhando popularidade, outras microcervejarias foram surgindo, e a antiga prática da produção de cerveja em casa, proibida desde a Lei Seca, foi liberada novamente em 1979. 6

Assim foi o início da Revolução das Cervejas Artesanais que trouxe os EUA de volta ao seu lugar entre as grandes nações cervejeiras. E algumas das características desta revolução, como o uso de insumos locais e o desejo constante dos norte-americanos de fazer tudo sempre maior, mais extremo e mais inovador do que já existe, deram origem a novos estilos de cerveja e trouxeram à tona práticas tradicionais pouco difundidas até então.

Vamos conhecer estes estilos um pouco melhor?

Principais estilos da Escola Americana


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American Lager

Esta é a cerveja mais consumida em todo o mundo. Baseada nas Pilsners alemãs e tchecas, a American Lager foi desenvolvida para ter a menor taxa de rejeição possível, pelo maior número de pessoas possível, com o menor custo de produção possível.

Usando cada vez menos lúpulo e adicionando à receita cereais mais baratos que a cevada, como arroz e milho, as cervejarias transformaram as Pilsners originais em uma cerveja de cor amarelo-palha, com leve aroma maltado e quase nada de lúpulo. é um estilo de cerveja muito refrescante, mas pouco complexo em termos sensoriais. Assim como qualquer outro estilo de cerveja, as American Lager têm o seu lugar no mercado, e alguns exemplares têm excepcional qualidade.

Alguns rótulos para conhecer: Oskar Blues Mama’s Little Yella Pils, Sixpoint The Crisp.


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Ales lupuladas

Os norte-americanos amam lúpulo, isso não tem como negar. Principalmente os lúpulos cultivados localmente, que costumam ter perfil resinoso, cítrico ou lembrando pinho (“piney”).

Este amor por lúpulos locais surgiu mais por necessidade do que escolha. Pete Slosberg, um dos cervejeiros pioneiros dos EUA, nos contou que criou a famosa Pete’s Wicked Ale, uma Brown Ale, usando lúpulos americanos simplesmente porque, na época, não era nada fácil obter lúpulos importados. E não é que deu certo?

Assim começou a febre do lúpulo. Primeiro vieram adaptações de estilos tradicionais usando lúpulos norte-americanos. Depois foram surgindo versões cada vez mais intensas, amargas, aromáticas, experimentos com outros estilos… Valia tudo! E o resultado se vê hoje com a grande variedade de Ales lupuladas norte-americanas.

As IPAs merecem uma seção à parte (veja abaixo), mas muitos outros estilos se encaixam nesta definição. Há as American Pale Ales, versões resinosas e cítricas das tradicionais Pale Ale britânicas. O mesmo vale para a relação entre as American Brown Ales e as originais do velho mundo. As American Amber Ales equilibram os lúpulos norte-americanos com robusta presença dos maltes caramelizados. E ainda vale mencionar as American Barleywine, que além de contar com lúpulos norte-americanos, são mais potentes que as inglesas em amargor, dulçor e teor alcoólico.

Alguns rótulos para conhecer: Sierra Nevada Pale Ale (APA), Brooklyn Brown Ale, Anderson Valley Boont Amber Ale, Anchor Old Foghorn (Barleywine).


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American IPA

Este talvez seja o estilo definitivo da escola americana. As IPAs americanas um dia já foram apenas uma versão das tranquilas IPAs inglesas, porém com lúpulos resinosos norte-americanos ao invés dos originais ingleses. A Anchor Liberty, lançada em 1975, é considerada a primeira American IPA. Hoje as IPAs americanas têm aroma e amargor mais intensos do que a Anchor Liberty, que se enquadraria melhor no estilo American Pale Ale.

Na busca por mais aroma, mais amargor, mais tudo, acabou nascendo a intensa Imperial IPA, ou Double IPA. E se dá pra fazer algo novo a partir das IPAs, porque não uma IPA com maltes torrados? Assim surgiu o estilo conhecido, erroneamente, como Black IPA*. E por aí vai, com inúmeras variações de IPA como Session IPA (menor teor alcoólico), New England IPA (turvas e frutadas), Brett IPA (fermentadas com Brettanomyces)… Aqui o céu é o limite!

* A meu ver, este termo é incorreto. Afinal, se a cerveja é “Pale” (clara, em inglês) não pode ser “Black” (preta, em inglês). Por isso prefiro o termo “India Black Ale” ou, ainda mais preciso, “American Black Ale”, como consta no guia de estilos da Brewers Association.

Alguns rótulos para conhecer: Founders All Day IPA (Session IPA), Stone IPA (American IPA), Brooklyn Blast! (Imperial IPA), Shipyard Black IPA.


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Wood-Aged Beers

A prática de armazenar cervejas em barris é milenar, portanto não foi criada pelos norte-americanos. Mas esta é uma das técnicas tradicionais que a escola americana ajudou a popularizar, explorando-a de formas criativas.

Aqui vale usar qualquer estilo como base. O importante é que as características da madeira estejam aparentes em conjunto com os sabores da cerveja. Com frequência, além da madeira, transparecem os aromas e gostos da bebida que antes estava no barril utilizado, o que traz possibilidades interessantes como o uso de barris de whiskey, rum, conhaque ou mesmo vinho.

As Wood-Aged Beers, especialmente quando baseadas em Imperial Stouts, estão entre as queridinhas dos Beer Geeks norte-americanos. Basta conferir a lista de cervejas com maiores pontuações dos EUA em aplicativos de avaliação como RateBeer e Untappd.

Alguns rótulos para conhecer: Brooklyn Black OPS, Founder’s Frootwood, Anchor Barrel Ale.


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Pumpkin Ale

Um texto sobre cervejas americanas não estaria completo sem mencionar as Pumpkin Ales, cervejas feitas com abóbora.

O uso de abóboras para produzir cerveja vem da época dos primeiros colonizadores. Ao chegar ao Novo Mundo com reservas escassas após uma longa viagem, produzir cerveja estava no topo da lista de prioridades. Mas ainda não haviam plantações de cevada, que precisava ser importada da Inglaterra a custos altos. Então os colonizadores aproveitaram fontes alternativas de amido que eram abundante na região. Entre elas, abóboras.

As abóboras foram dando lugar à cevada com a proliferação do seu cultivo nos Estados Unidos. Mas, por volta dos anos 1980, como consequência do resgate de técnicas e estilos históricos durante a Revolução das Cervejas Artesanais, as Pumpkin Ales voltaram 4 e hoje são consideradas cervejas sazonais de outono 7, estação que no hemisfério Norte vai de setembro a dezembro. Quase sempre utiliza-se, além das abóboras, especiarias como cravo, canela, gengibre e noz-moscada, resultando em uma bebida que geralmente lembra um doce de abóbora líquido.

Alguns rótulos para conhecer: Brooklyn Post Road, Shipyard Pumpkinhead Ale.


Pessoal, aqui fechamos a série de textos sobre as Escolas Cervejeiras. Este é um tema riquíssimo e praticamente interminável, visto que as tradições continuam a evoluir diariamente. Se você quer se aprofundar neste assunto, as referências nos rodapés de cada artigo são bons pontos de partida.

A Escola Americana talvez seja a mais mutante de todas. Os cervejeiros e cervejeiras norte-americanas não têm apego nenhum a tradições antigas na produção de cerveja – até porque não as têm –, então abusam da criatividade e estão sempre lançando novas tendências e produtos malucos. Vai uma cerveja com bacon aí?

Alguns nomes que promoveram a Cultura da Cerveja americana: Fritz Maytag, o pai da cerveja artesanal norte-americana; Pete Slosberg, um dos pioneiros da Revolução das Cervejas Artesanais nos EUA; Charlie Papazian, fundador da Association of Brewers e da American Homebrewers Association, ex-presidente da Brewers Association e escritor; e muitos outros.


Conheça as outras escolas cervejeiras

  1. Escola Belga
  2. Escola Alemã
  3. Escola Britânica
  4. Escola Americana

Referências

1. Beer Institute – Beer & American History
2. Economic History Association – A Concise History of America’s Brewing Industry
3. Brewers Association – Number of Breweries: Historical U.S. Brewery Count
4. The Complete Beer Course (Joshua M. Bernstein)
5. The Beer Hunter, ep. 5: California Pilgrimage (Michael Jackson)
6. Larousse da Cerveja (Ronaldo Morado)
7. BJCP Style Guidelines 2015

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