Este é o terceiro artigo da série sobre as Escolas Cervejeiras. Conheça aqui um pouco mais sobre a Escola Britânica, sua história, características gerais e alguns dos principais estilos com indicações de rótulos icônicos.

Se, como vimos no artigo anterior desta série, a escola alemã logo vem à mente ao se falar em cervejas da família Lager, o mesmo pode ser dito da escola britânica ao se falar em Ales.

Como seria de se esperar de uma região na qual os pubs são o principal ponto de encontro e socialização, a cerveja tem posição de destaque na cultura britânica.

Conheça neste artigo um pouco mais sobre a história da escola britânica, as características dos principais estilos que a compõem, alguns rótulos icônicos e personalidades importantes.

A Escola Britânica

Desde a Idade do Ferro, antes da era cristã, as ilhas britânicas eram habitadas por tribos celtas que cruzaram o canal da mancha entre 1500 e 500 a.C.1 Tudo indica que estas tribos já produziam cerveja, pois o general romano Júlio César, ao comandar a primeira invasão romana à Inglaterra, em 55 a.C., se deparou com povos que consumiam uma bebida alcoólica fermentada, feita a partir de grãos.2 Em outras palavras, cerveja.

Mesmo durante o domínio dos romanos, que a consideravam uma bebida inferior ao vinho, a cerveja se manteve no dia-a-dia dos habitantes das ilhas britânicas, com seu consumo suplantando o do vinho por volta do século III. Com o fim do Império Romano no século V e a subsequente ocupação das ilhas pelas tribos anglo-saxãs vindo da Europa continental, na região onde hoje ficam a Dinamarca e Alemanha, hidromel e cerveja (Ale) eram as bebidas mais consumidas.2 Falando em “Ale”, é nesta época que a palavra surge no vocabulário da língua inglesa, originada da palavra dinamarquesa para cerveja, øl.

Como vimos nos artigos anteriores desta série, o início da Idade Média foi marcado por algumas transformações que foram fundamentais para a história da cerveja na Europa. Entre as principais estão a expansão do Cristianismo, que trouxe grandes desenvolvimentos no conhecimento sobre a produção de cerveja – afinal, o clero era a única classe alfabetizada da população; e o crescimento das cidades, que aumentou a demanda por cerveja de tal forma que a produção doméstica não conseguia suprir, estimulando os mosteiros a produzirem cerveja em grande escala.

No decorrer da Idade Média, tanto produtores domésticos como monásticos utilizavam diversos aditivos, como ervas e raízes, em suas cervejas. O nome genérico para estes aditivos era gruit.2 Foi por volta do século XV que a prática de produzir cervejas com lúpulo foi introduzida nas ilhas britânicas, vindo da Europa continental – provavelmente Flandres, hoje uma região da Bélgica. 3

Esta nova cerveja produzida com lúpulo tinha até um nome diferente. Ale era o nome das antigas cervejas sem lúpulo, e as novas cervejas com lúpulo eram chamadas de Beer. Esta distinção persistiu até o fim do século XVII, com variações que perduraram até o século XX.4

Devido às limitações de importação, a Irlanda foi uma das últimas regiões a acrescentar o lúpulo em suas cervejas, adquirindo relevância no cenário cervejeiro mundial a partir do século XVIII, quando Arthur Guinness fundou a famosa cervejaria que leva seu nome, em Dublin.5

Com o passar dos anos, a produção de cerveja nas ilhas britânicas foi se modernizando e seu volume aumentando. A revolução industrial, que inclusive teve seu início na Inglaterra no século XVIII, trouxe grandes avanços tecnológicos que fomentaram o desenvolvimento de novas técnicas de produção (p. ex. o Burton Union Sistem e os Yorkshire Squares 6) e beneficiamento de insumos (como maltes de tosta leve e a “burtonização” da água).

Porém mesmo com avanços tecnológicos, os britânicos sempre mantiveram o respeito às tradições. As Ales e os Pubs continuam sendo componentes centrais da cultura britânica. Como dizia Michael Jackson, o lendário Beer Hunter, “não se pode ter cerveja de verdade (“Real Ale”) sem Pubs de verdade.”7

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Liverpool Organic, uma das cervejarias britânicas que mantém viva a tradição das Real Ales. Clique para conferir o vídeo.

A Real Ale, também conhecia como Cask Ale, é o resultado de uma forma tipicamente britânica de se produzir e servir cerveja. Basicamente a Real Ale é uma cerveja produzida com ingredientes tradicionais (água, malte de cevada, lúpulo e levedura), maturada no mesmo barril (o cask, tradicionalmente de madeira porém hoje mais comumente feito em aço inox) do qual é servida, sem o uso de gás carbônico externo (ou seja, por gravidade ou com bombas manuais).8

Fundada em 1971 e hoje com quase 185 mil membros, a Campaign for Real Ale – CAMRA tem como objetivo a preservação da tradição das Real Ales e dos Pubs, ameaçados pelas agressivas práticas comerciais dos grandes grupos cervejeiros.

Mas a escola cervejeira britânica continua viva. Hoje existem em torno de 50 mil pubs no Reino Unido, nos quais mais de 70% de toda a produção de cerveja é consumida.5 Ainda bem que sobra um pouco para chegar ao Brasil! Conheça abaixo alguns dos principais estilos da escola britânica, com rótulos icônicos que se encontra nas lojas Mestre-Cervejeiro.com

Principais estilos da Escola Britânica

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English Pale Ale e Bitter

Não há um consenso sobre as diferenças entre os nomes Pale Ale e Bitter. Alguns autores afirmam que os dois termos efetivamente são sinônimos 9, enquanto outros, como Garrett Oliver, afirmam que a cerveja se chama Bitter quando em barris, tornando-se uma Pale Ale quando filtrada e engarrafada.10 Até mesmo os principais guias de estlo divergem: O BJCP 2015 descreve apenas as Bitters, explicando que surgiram a partir das English Pale Ales; enquanto no BA tanto as Bitters como a English Pale Ale figuram como estilos distintos.

Independentemente dos nomes, o que mais importa são as variações do que se encontra no copo. As diferenças entre as Bitters são sutis, seguindo de forma geral uma sequência incremental em intensidade de teor alcoólico, amargor e corpo. Porém de modo geral apresentam baixa carbonatação e paladar seco.

A lista começa com a Ordinary Bitter, uma cerveja de cor âmbar claro, apresentando delicados aromas maltados remetendo a biscoito equilibradas com as notas florais e herbais dos lúpulos ingleses. Na boca baixo dulçor, baixo amargor e baixo corpo.

A Best Bitter vem na sequência, com coloração âmbar e aromas de média intensidade remetendo a caramelo, também acompando notas florais e herbais. Na boca apresenta médio dulçor, amargor e corpo.

A mais intensa delas é a Strong Bitter, que ficou conhecida como Extra Special Bitter (ESB) devido à versão da Fuller’s que tem este nome. De coloração âmbar a cobre, apresenta aromas presentes com notas de caramelo e toffee dos maltes, complementados pelo aroma presente dos lúpulos. Na boca apresenta dulçor e amargor mais pronunciados, com corpo cheio.

Alguns rótulos para conhecer: Fuller’s Chiswick Bitter (Ordinary Bitter), Fuller’s London Pride (Best Bitter), Shepherd Neame Spitfire (Strong Bitter).


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English India Pale Ale

Quem já provou uma cerveja artesanal certamente já ouviu falar na India Pale Ale, as famosas IPA. Mas apesar das IPAs norteamericanas levarem toda a fama, é na Inglaterra que este popular estilo tem sua origem.

O estilo India Pale Ale surgiu da necessidade de transportar cerveja da Inglaterra à Índia, que no século XVIII era colônia britânica — afinal, era quente demais para produzir cerveja por lá e ainda não existiam tecnologias modernas de refrigeração 10. Ao contrário das Porters e Barley Wines, as Pale Ales não aguentavam a longa viagem de navio. Mas os ingleses servindo na Índia não ficariam sem uma opção de cerveja mais refrescante, então os cervejeiros britânicos buscaram uma solução.

E encontraram! Desde meados de 1760 os cervejeiros britânicos já eram aconselhados a aumentar a carga de lúpulo nas cervejas destinadas à Índia.11 A maior lupulagem, aliada ao teor alcoólico mais elevado e paladar mais seco (menos açúcar residual), atuam efetivamente como conservantes nas cervejas. O nome India Pale Ale foi utilizado pela primeira vez em 1815, e além de cair no gosto dos ingleses, acabou sendo bem aceita pelo mundo todo nos séculos seguintes.

As tradicionais India Pale Ale inglesas tem coloração âmbar, apresentando intenso aroma de lúpulo com notas florais, herbais e terrosas. Notas maltadas remetendo a caramelo compõem o aroma. Na boca predominam os sabores de caramelo e amargor presente. É uma cerveja saborosa, com médio corpo e paladar seco.

Alguns rótulos para conhecer: Meantime India Pale Ale, Samuel Smith’s India Ale, Shepherd Neame India Pale Ale.


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Porter e Stout

No início do século XVIII, a oferta de cervejas nos pubs ingleses era restrita a poucos tipos de cerveja. Os mais comumente encontrados eram: Mild, cerveja fresca; Stale, que era simplesmente a Mild envelhecida; Amber, cervejas mais claras; Ale, que eram as cervejas menos lupuladas; e Stout, que podia ser de qualquer cor, desde que fosse uma cerveja mais alcoólica (stout significa “forte”).

Com o surgimento e crescente popularidade das Pale Ale no decorrer do século, as cervejas mais escuras (Mild e Stale) começaram a perder competitividade. Além disso, alguns donos de pub espertinhos compravam a Mild, que era mais barata, e a deixavam maturando para então vendê-la como Stale, mais cara. Para contornar esta situação, os cervejeiros londrinos decidiram melhorar suas cervejas escuras, aumentando a carga de lúpulo e melhorando os processos de maturação. O resultado foi uma cerveja saborosa e que voltou a vender bem, tanto por ser mais barata do que as Stale e Pale Ale, como por ter caído no gosto dos Porters (trabalhadores que carregavam mercadorias nas ruas, mercados e portos da cidade), que acabaram dando o apelido à nova cerveja.12

Existem algumas variações de Porter, porém de modo geral são cervejas de coloração marrom-escuro, com aromas e sabores predominantemente maltados, remetendo a toffee, chocolate e torrefação. O lúpulo não se destaca no aroma, mas está presente na boca com médio amargor equilibrado com o dulçor dos maltes.

Já as Stouts são descendentes diretas das Porters. A diferença entre elas também está sujeita a debate, mas tudo indica que as cervejarias da época começaram a produzir versões com perfil mais intenso e torrado, denominando as criações como Stout Porter. Com o tempo acabou ficando apenas o nome Stout, que também veio a ter suas próprias variações.10 Entre as principais estão as Oatmeal Stouts, produzidas com aveia; as Sweet Stouts, produzidas com aditivos como açúcar, lactose e/ou chocolate; e as Russian Imperial Stouts, mais intensas em corpo, amargor e teor alcoólico. Outra Stout que não poderia ficar de fora de um artigo sobre a escola britânica é a mais famosa e mais vendida no mundo, a Guinness. Ela é do estilo irlandês Dry Stout, ou Irish Stout, que tem perfil intenso de torrefação, baixo corpo e paladar seco.

Alguns rótulos para conhecer: Fuller’s London Porter, Samuel Smith’s Oatmeal Stout, Young’s Double Chocolate Stout (Sweet Stout), Guinness (Dry Stout), Courage Imperial Russian Stout (Imperial Stout).


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Scotch Ales

Quando se fala em Escócia, é quase impossível não pensar logo em scotch whisky. Mas a estreita relação entre whisky e cerveja muitas vezes é esquecida. A “água da vida”, de onde vem o nome whisky (uisge beatha em gaélico escocês), pode ser resumida de maneira bastante simplificada como cerveja destilada.

O clima escocês é frio demais para o plantio de lúpulo, mas adequado para o plantio de cevada. E o clima não influencia apenas nos insumos, mas também (principalmente há alguns séculos atrás) nos processos produtivos. As temperaturas mais baixas faziam os períodos de fermentação e maturação serem mais longos comparando-se com as cervejas inglesas, suavizando as características sensoriais da levedura e contribuindo para um dulçor residual mais elevado.10

Assim como as Bitters, existem subdivisões dentro das Scotch Ales que seguem uma sequência de intensidade. Porém de modo geral tem coloração âmbar a cobre, decididamente maltadas, com aromas indo do biscoito à turfa, passando pelo caramelo, toffee, podendo até apresentar notas defumadas. O estilo mais comumente encontrado no Brasil é a Strong Scotch Ale, também conhecido como Wee Heavy, que é a mais intensa das Scotch Ales. Tem médio-alto dulçor, médio amargor, e leve calor do teor alcoólico elevado.

Alguns rótulos para conhecer: Founders Dirty Bastard, Bodebrown Wee Heavy.


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Strong Ales

Os ingleses têm uma longa e notória rixa com os franceses. E como as bebidas compõem parte fundamental da cultura de ambos os países, os ingleses não poderiam deixar os vinhos franceses sem competidores à altura. Daí surgiram e se popularizaram as cervejas alcoólicas, aromáticas e complexas que agruparemos aqui como Strong Ales: Barley Wine e Old Ale.

Mais uma vez temos uma dificuldade semântica entre estilos britânicos, desta vez entre Barley Wine e Old Ale.13 Historicamente, os dois termos eram sinônimos, porém no decorrer do século XX foram se diferenciando e hoje representam cervejas com características distintas, apesar de similares. 10

De modo geral, as Old Ales são cervejas que vão do âmbar ao cobre profundo, com perfil maltado e complexo remetendo a caramelo, melado, castanhas e toffee. Apesar de tradicionalmente ser envelhecida em barris, não adquire características sensoriais da madeira, apenas um leve caráter e oxidação que pode lembrar xerez ou vinho do porto. É uma cerveja intensa, encorpada, com paladar puxando para o adocicado, alcoólica, e de baixa carbonatação.

Já as Barley Wines inglesas apresentam coloração que vai do âmbar claro ao cobre, aromas intensos combinando todos os ingredientes: caramelo, castanhas e tofee dos maltes, herbal, floral e terroso dos lúpulos, e notas frutadas muitas vezes remetendo a frutas cristalizadas da levedura. Na boca, o dulçor e amargor são intensos porém em equilíbrio. Sente-se o agradável calor do álcool, que permanece na boca junto com leve amargor após o gole.

Sugestão de harmonização para ambas: um sofá confortável e seu álbum favorito em uma tarde preguiçosa de domingo.

Alguns rótulos para conhecer: Fuller’s Vintage Ale (Old Ale), Box Steam Dark and Handsome (Old Ale), Fuller’s Golden Pride (Barley Wine), Pagan Dragon’s Blood (Barley Wine).


Este artigo apenas toca na superfície das inúmeras características e estilos de cerveja que compõem fantástica escola britânica. Entre os estilos que merecem ser mencionados mas não foram descritos em detalhe estão as Irish Red Ales, Mild Ales, Summer Ales, entre outras variedades menos conhecidas e/ou regionais.

A escola britânica é uma tradição cervejeira que, injustamente, muitas vezes fica em segundo plano, mas que oferece cervejas únicas e extremamente agradáveis pela sua elegância e equilíbrio.

Alguns nomes que promoveram a Cultura da Cerveja britânica: Michael Jackson, o lendário Beer Hunter; Roger Protz, escritor de diversos livros sobre a cerveja britânica; Garrett Oliver, mestre cervejeiro da Brooklyn; entre tantos outros.

Cheers, mate!


Conheça as outras escolas cervejeiras

  1. Escola Belga
  2. Escola Alemã
  3. Escola Inglesa
  4. Escola Americana (em breve)

Referências

1. A Brief History of England

2. A History of Beer and Brewing (Ian S. Hornsey)

3. History of Hops

4. The long battle between Ale and Beer

5. Larousse da Cerveja (Ronaldo Morado)

6. Three systems of fermentation 1880 – 1914

7. The Beer Hunter, ep. 6: Best of British (Michael Jackson)

8. Campaign for Real Ale – Camra

9. Inside the Pale

10. A Mesa do Mestre Cervejeiro (Garrett Oliver)

11. IPA: The executive summary

12. The origin of Porter (and a little bit about three-threads)

13. So what IS the difference between barley wine and old ale?

2 Comments

    1. Oi Juliana! É verdade, este texto ficou faltando. Mas já está sendo produzido e semana que vem estará no ar!

      Obrigado por nos acompanhar 🙂

      Abs

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